Como ter uma conversa sem julgar as pessoas?

Um diálogo isento de julgamentos pessoais é uma arte muito difícil de praticar no nosso dia a dia, especialmente se não temos consciência de como realizá-lo.

A primeira coisa a se aprender é como desvincular as atitudes da pessoa no dia a dia, o conteúdo que ela transmite e suas expressões da influência que sua experiência pessoal terá no julgamento do que foi observado.

Sempre que observamos, avaliamos e julgamos baseado na nossa experiência pessoal, diminuímos a chance de passar uma mensagem que seja totalmente compreendida e aceita pelo ouvinte. Como estamos acrescentando algo pessoal a esse conteúdo, a outra pessoa pode não possuir as mesmas experiências que você e não criará a empatia necessária para assimilar sua mensagem.

A observação seguida do julgamento está tão inserida na nossa prática diária que nós temos dificuldade de entender a diferença entre ambos. Vou contar um caso pessoal para que você entenda melhor:

Estava com meus sócios em uma reunião que tinha o objetivo de apresentar a todos os envolvidos as especialidades médicas das equipes de um hospital. Cada coordenador apresentava sua equipe, explanava um pouco sobre sua experiência e falava sobre as tendências da sua especialidade.

Após todos se apresentarem, o diretor da Instituição que organizou o evento tomou a palavra e falou sobre as suas expectativas em cada área e como as diversas especialidades deveriam contribuir com a melhora do cuidado assistencial ao paciente.

Terminada a reunião eu perguntei aos meus sócios: “O que vocês acharam da mensagem do diretor no fim da reunião? ”

As respostas foram:

– O diretor fala mais que a boca. (Observação seguida de julgamento do comportamento do quanto ele falava).

– Ele dá voltas e voltas e não diz nada. (Observação seguida de julgamento do comportamento).

Perguntei novamente, mas o que vocês acharam doque ele disse?

E as respostas foram:

– Parece que ele quer sempre ser a pessoa certa sobre tudo. (Observação seguida de julgamento sobre suas intenções).

– Ele é uma pessoa que deseja atrair a atenção de todos. (Observação seguida de julgamento e dedução sobre suas intenções).

Como vocês podem perceber, estamos tão habituados a expressar nossas opiniões pessoais a respeito das outras pessoas que temos dificuldade de descrever o fato em questão sem julgá-lo e na maioria das vezes não respondemos o que foi perguntado, no caso a opinião e o conteúdo da mensagem do diretor.

Agora vamos ver como poderiam ter sido as respostas sem associar o julgamento pessoal:

– O diretor fala mais que a boca. (O diretor é uma pessoa que gosta de expressar suas opiniões de forma detalhada.)

– Ele dá voltas e voltas e não diz nada. (Ele é redundante em expressar sua opinião, retornando ao mesmo assunto algumas vezes.)

– Parece que ele quer sempre ser a pessoa certa sobre tudo. (Ele deu informações detalhadas de modo a convencer a todos, baseado em sua experiência pessoal.)

– Ele é uma pessoa que deseja atrair a atenção de todos. (Ele gosta quando todos estão prestando atenção e focados enquanto se dirige a equipe.)

Para você começar a praticar e se expressar sobre suas observações sem associá-las a um julgamento pessoal seguem algumas dicas:

  • Não vincule a ação do verbo à pessoa, mas sim às atitudes que ela tomou, por exemplo:

– Você é preguiçoso. (Observação seguida de julgamento)

– Você tem atitudes que passam a impressão de ter preguiça para fazer as coisas. (Observação isenta de julgamento)

– O Marco vive deixando as coisas para depois. (Observação seguida de julgamento)

– O Marco não consegue se programar e deixa muitas tarefas para serem feitas perto do prazo final. (Observação isenta de julgamento)

  • Não tire conclusões antecipadas sem que você tenha certeza sobre a questão, por exemplo:

– Caso você não coma de forma balanceada vai ficar doente. (Observação com julgamento)

– Caso você não coma de forma balanceada poderá prejudicar sua saúde. (Observação isenta de julgamento)

  • Não use termos que generalizam as ações. Seja especifico quando se referir às pessoas. Por exemplo:

– Todo mundo que vota nesse partido é do contra. (Observação com julgamento)

– Muitas pessoas que optam por votar neste partido tem a opinião contrária à da maioria vigente. (Observação isenta de julgamento)

– Todos os políticos são corruptos. (Observação seguida de julgamento)

– Os políticos que não seguem um padrão ético de conduta tem uma maior chance de estarem envolvidos em corrupção. (Observação isenta de julgamento)

Exercer e expressar-se de forma que demonstre uma observação sem julgamento sobre os fatos e pessoas é possível desde que esteja consciente do seu comportamento.

No momento em que você começar a se comunicar com os outros empregando essa percepção sem oprimir, julgar ou acuar o seu ouvinte, ele ficará propenso a ouvir, entender e aceitar a sua mensagem sem ressentimentos e até mesmo com empatia e disposição.

LEANDRO GREGORUT

2018-09-06T00:46:36+00:00